Um blogue de contos fora das gavetas e não só... porque a escrever é que nos entendemos.
publicado por OPTD | Domingo, 17 Janeiro , 2016, 17:54

 

 

 

 

2ª parte

Cena 4

 

Um aluno

[IV - O Mostrengo]

 

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

A roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

 

Fernando Pessoa In Mensagem

Entrevistadora nº2

E já estamos de regresso.

D. Afonso V tinha-nos dito que não havia ninguém melhor do que o seu filho para nos falar do estado em que seu pai deixou as finanças.

(Dirige-se para D. João II)

Vossa Majestade, diga-nos, por favor, qual era a situação financeira do país na altura em que subiu ao trono...

D. João II

(Pouco satisfeito) Ah sim?!

(Cruzando as mãos) A situação financeira não era a mais favorável.

Posso dizer que meu pai só me deixou rei das estradas de Portugal, tal era a situação de (silabando) pe-nú-ri-a da coroa.

Foi uma pena, (vira-se para o pai) meu pai, ter-se afastado de meu avô D. Pedro e ter caído nas mãos do Conde de Barcelos e Duque de Bragança.

O meu avô era uma verdadeiro homem de Estado.

O poeta Fernando Pessoa escreveu que ele era: “Claro em pensar, e claro no sentir, e claro no querer”.

D. Pedro foi a minha maior influência!

Entrevistadora nº1

A perseguição (sublinha) impiedosa que Vossa Alteza moveu aos Bragança e a outros pode entender-se como a sua resposta às conspirações de D. Afonso para afastar o seu avô Pedro da regência do reino?  

D. João II

(Ofendido) Minha senhora, não se trata de perseguição mas de uma visão política diferente.

Meras divergências de opinião… muito democráticas, aliás...

O rei deve destacar-se como o único centro de poder.

Quando assumi o trono tive de restabelecer o prestígio da coroa e limitar os privilégios de muitos nobres.

Era preciso fortalecer o poder real que o meu pai desbaratou e reverter para a coroa os bens que doou.

Claro que esta situação não lhes agradava e, por isso, alguns nobres como os duques de Bragança e de Viseu manifestaram grande hostilidade e conspiraram contra mim para me afastarem do trono.

(Irónico) Impiedosamente...

Entrevistadora nº2

Vossa majestade ficou também conhecido pelo impulso que deu à Expansão, definindo a empresa ultramarina e a chegada à Índia como objetivos de interesse nacional.

Que navegadores mereceram o seu reconhecimento para pôr em prática esse plano?

D. João II

Destaco, sobretudo, dois GRANDES navegadores, que fizeram as viagens por mar: Diogo Cão e Bartolomeu Dias.

As boas referências que tinha de Diogo Cão e dos préstimos da sua família levaram-me a escolhê-lo para dar continuidade aos descobrimentos que estavam quase parados,... como este país...

Bartolomeu Dias pertencia também a uma família de experientes navegadores.

Foram estes dois navegadores que escolhi para capitães das armadas nesta nova fase das navegações controladas pela Coroa.

Entrevistadora nº1

Antes de passar a palavra a esses dois navegadores, gostava ainda de o ouvir sobre outro tema: A política de sigilo nos descobrimentos.

Por que razão foi necessário manter segredo sobre as viagens realizadas?

D. João II

(Começando baixinho e voltando ao tom normal a pouco e pouco) O segredo justificava-se devido à forte concorrência relativamente à expansão.

O objetivo era esconder de Castela, dos Reis Católicos, os conhecimentos e as estratégias a seguir na descoberta do caminho marítimo para a Índia.

Entrevistadora nº2

(Dirigindo-se a Diogo Cão)

O senhor foi o primeiro dos navegadores da fase joanina da expansão. Ficou conhecido por ter levantado os primeiros padrões de pedra em várias zonas da costa africana para assinalar a posse dos territórios para a coroa portuguesa. Pelos seus feitos é citado em diversas obras literárias, como n´Os Lusíadas, de Luís de Camões ou no poema «Padrão», da obra Mensagem de Fernando Pessoa.

É também personagem no romance As Naus, de António Lobo Antunes.

Tem vossa senhoria, por acaso, conhecimento de algum deles?

Diogo Cão


Coro de alunos

(Arrogante) O que é que acha?!...

(Declama a primeira estrofe)

 

O esforço é grande e o homem é pequeno

Cena 5

 

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal moreno

E para diante naveguei.

 

A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão sinala ao vento e aos céus

Que, da obra ousada, é minha a parte feita:

O por-fazer é só com Deus.

 

E ao imenso e possível oceano

Ensinam estas Quinas , que aqui vês,

Que o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é português.

 

E a cruz ao alto diz que o que me há na alma

E faz a febre em mim de navegar

Só encontrará de Deus na eterna calma

O porto sempre por achar.

       (Fernando Pessoa, “Padrão” in Mensagem )

Entrevistadora nº1

Ilustre navegador, as informações que nos chegaram sobre vós e sobre as vossas viagens são escassas e ambíguas.

Vários cronistas referem-se a elas, mas não são coincidentes quanto ao número de viagens realizadas.

Quantas viagens comandastes ao serviço de D. João II ?

Diogo Cão









 

 

 

 

 

 

Os outros navegadores

 

Diogo Cão

(Como se ladrasse) Bem!  

Já se passou tanto tempo que estou um pouco esquecido.

Fiz muitas, mas talvez duas tenham sido as mais importantes, como capitão. Uma por volta de 1482 e outra, talvez, em 1485 ou 86.

Na primeira viagem, fizemos escala em S. Jorge da Mina e, depois de muitos meses a navegar, chegámos a um rio que tinha uma embocadura muito larga, a que davam o nome de rio Congo.  

Na margem esquerda do rio, ergui um padrão de pedra - o padrão de S. Jorge - para assinalar a presença portuguesa.

Aqui ouvi falar dum rei mui poderoso do Congo e  enviei alguns emissários para entrarem em contato com ele.

E enquanto eles partiram à procura do rei, o resto da tripulação continuou a navegar para sul e chegámos ao cabo do (como se ladrasse novamente) Lobo (que depois chamaram cabo de Sta. Maria), onde ergui outro padrão  dedicado a Santo Agostinho.

Depois, navegámos ainda um pouco mais até ao cabo de Santa Marta e depois voltámos para trás (sorrindo) e deixámos de dar nomes de santos a pedras... (Sério) Muitos marinheiros estavam doentes, sofriam de escorbuto… Muitos bochechavam com chichi…

 

Que nojo!

 

... já havia poucos mantimentos e pensámos que tínhamos tocado o extremo sul de África.

Quando regressámos à foz do Congo, para embarcar os emissários que tínhamos mandado ao rei, verificámos que estes não tinham voltado.

Então capturámos alguns negros e trouxemo-los, como reféns, para Lisboa (em Abril de 1484).

Na segunda viagem devemos ter atingido a Serra Parda e erguemos mais dois padrões (um no cabo Negro,outro no cabo do Padrão)

Nesta viagem devolvemos os reféns e começámos a explorar o Rio Congo que, de acordo com o mapa de Fra Mauro, dividia a África Austral do resto do continente e desembocava no Índico.

A certa  altura fomos por terra até à capital do Congo e assinámos uma aliança com o rei.

Depois continuámos a exploração do rio até às cataratas de Ielála, e aqui soubemos que não o podíamos subir mais por causa das cachoeiras.

Como não conseguíamos chegar ao indico através do rio, desistimos e continuámos a navegar pelo oceano

 

Quando passámos o Cabo de Santa Marta, apanhámos uma grande desilusão. Verificámos que a África não acabava ali e continuava para sul.

(Cansado) Não há por aí um copinho de água?! Isto cansa...

Entrevistadora nº2

Está vossa mercê a querer dizer que pensou ter atingido o limite sul de África na 1ª viagem que fez e só se apercebeu do engano na 2ª expedição?

Diogo Cão

(Embaraçado) Sim, foi uma grande deceção. A desembocadura daquele rio era tão larga que, a princípio, nem pensámos nisso...

Entrevistadora nº1

Sabemos que depois da primeira viagem como capitão da armada, vossa Mercê foi agraciado por D. João II com o título de cavaleiro, com um brasão e uma tença anual.

Sabemos também que depois da 2ª expedição deixou de haver referência a vós nos documentos da época.

A que se ficou a dever  este silêncio?

Diogo Cão

Ó rica donzela, eu já tenho muita idade, sabe?

Agora dizem que quem tem muita idade tem al.. al… al...zheimer.

Parece!

Eu não sei se não deram notícias de mim por ter caído em desgraça junto do rei ou se foi por ter tombado para sempre ainda na viagem.

Eu já não não tenho memória!

Já não sei em que era nasci ou morri.

Se os homens que escreviam não escreveram, como querem saber as coisas?

Vocês pensam que (apontando para o público) estes alunos também escrevem tudo o que os professores dizem?

E nem vale a pena falar daquilo que eles conseguem ouvir...

Entrevistadora nº2

O desejo de atingir a Índia leva D. João II a organizar uma nova armada assim que a expedição de Diogo Cão chegou a Portugal.

O comando foi entregue ao navegador Bartolomeu Dias.

(dirige-se para Bartolomeu Dias)

Que preparação tínheis para serdes escolhido para este cargo e como era constituída a frota que comandáveis em 1487?

Bartolomeu Dias

Bem, muita da preparação que tínhamos era adquirida com a prática, através das muitas viagens que fiz.

Servi, durante algum tempo, na fortaleza de São Jorge da Mina; fui capitão de um navio numa expedição ao Golfo da Guiné, estava também habilitado a usar o astrolábio, a determinar as coordenadas de um local e a enfrentar tempestades e calmarias.  

Quanto à armada que agora comandava, era  formada por duas caravelas, a São Cristóvão, comandada por mim, a São Pantaleão e uma naveta de mantimentos.

Era uma pequena frota!

Entrevistadora nº1

Curiosamente, parece que para além da tripulação formada por portugueses viajavam também dois negros do Congo e quatro negras da Guiné capturados por Diogo Cão.

Com que finalidade embarcaram estes negros? Serviam de intérpretes? (Curiosa) E as negras?!

Bartolomeu Dias

(Malicioso) Não, a finalidade era outra.

El-rei D. João II era um homem inteligente .

Esses negros estavam bem alimentados e bem vestidos, e levavam  mostras de prata e ouro e especiarias.

O objetivo era serem largados na costa de África para impressionar e darem notícia às populações daquelas regiões da grandeza de Portugal e ao mesmo tempo recolherem informações sobre o reino do Preste João.

Entrevistadora nº2

Sobre a viagem que Bartolomeu Dias realizou pouco se sabe.

Não existe nenhum diário de bordo e os registos são escassos...

Um dos poucos documentos que revela pormenores da viagem é a obra de João de Barros, Décadas da Ásia, que recorre a alguma imaginação, parece-me...

Vossa mercê lembra-se ainda da viagem que realizou?

Quer relatar-nos algum episódio?

Bartolomeu Dias

(Cansado) Vou tentar... Vou tentar!  

A armada partiu em Agosto de 1487, fizemos escala em São Jorge da Mina para abastecimento e depois seguimos a rota de Diogo Cão.

No percurso fomos desembarcando alguns negros em vários pontos da costa  que levavam instruções precisas.

Em dezembro, devemos ter atingido o ponto mais a sul alcançado por Diogo Cão, a serra Parda, na costa da atual Namíbia.

Continuámos para sul e chegámos  à Angra das Voltas, onde ergui o padrão de Santiago. A partir daqui os ventos de sueste obrigaram-nos a afastar da costa e tivemos de navegar em  alto mar durante vários dias.

Quando tentámos aproximar-nos da costa rumámos para leste mas não avistámos terra.

Então, decidi rumar para Norte e fomos dar a uma zona onde havia gado e pastores a que demos o nome de Angra dos Vaqueiros (ou Angra de S. Brás, mais um santo!). Só nesta altura é que nos apercebemos que já tínhamos dobrado a África e estávamos na  costa oriental, já no Índico.

Ainda avançámos até ao rio do Infante, onde ergui o padrão de S. Gregório. Mas, a partir daqui os navegadores não quiseram avançar mais.

Na viagem de regresso, navegámos junto à costa e explorámos alguns pontos, como o Cabo das Agulhas e o Cabo das Tormentas, onde ergui o padrão de São Filipe.

Entrevistadora nº1

Então quanto tempo demorou a viagem?

Bartolomeu Dias

Cerca de dezasseis meses e meio. Embarcámos em Agosto de 1487 e chegámos a Lisboa em Dezembro de 1488. É fazer as contas, como dizia aquele senhor...

Entrevistadora nº2

Que importância foi atribuída à sua viagem naquela época?

Bartolomeu Dias

Uma grande importância, senhora!

Nós fomos responsáveis por uma das maiores revoluções geográficas do século XV.

Os europeus estavam convencidos de que os Oceanos Atlântico e Índico não tinham ligação e que a África se prolongava até ao Polo Sul.  

Nós provámos que a geografia de Ptolomeu estava errada.

A nova carta geográfica de Henricus (faz menção de usar um martelo) Martelus Germanus de 1489 é a primeira a incluir as informações recolhidas nas viagens de Diogo Cão e na minha, claro.

D. João II ficou também  a saber que as caravelas não aguentavam aqueles mares tempestuosos, e era necessário construir barcos mais resistentes .

Foi também com base na minha viagem que el-rei recusou a proposta de Colombo, (aparte) esse vendido, de atingir a Índia pelo Ocidente.

Além disso,  a minha  viagem foi muito importante porque abriu uma nova rota. Sabem qual é o nome da rota ?…

(Aguarda que o público responda e diz:) , a rota do Cabo.

Entrevistadora nº1

Terá sido essa a razão da mudança do nome de cabo das Tormentas para cabo da Boa Esperança?

D. João II

 

Bartolomeu Dias

(D. João II abana afirmativamente a cabeça)

 

(Olha para o rei D. João II) Sim.

D. João II viu que a passagem do Cabo das Tormentas abria as portas da Índia e do comércio das especiarias. Por isso, mudou o nome para cabo da Boa Esperança, que é um nome muito mais giro até...

Entrevistadora nº2

 

Sabemos que depois desta viagem terá participado ainda em duas outras armadas importantes: a de Vasco da Gama e a de Pedro Álvares Cabral.

Mas esta vossa viagem até ao extremo sul de África foi sem dúvida um marco histórico notável.

A nível literário, o seu feito foi imortalizado por dois dos maiores poetas portugueses. Camões, em Os Lusíadas, e Fernando Pessoa que escreveu  um epitáfio em sua homenagem, no qual resume a vida heroica, a morte exemplar e a mensagem para a posteridade do mito “Bartolomeu Dias”.

Vamos ouvir as palavras de Fernando Pessoa, aqui pelo nosso coro:

Aluno(s)

Cena 6

 

JAZ AQUI, na pequena praia extrema,

O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,

O mar é o mesmo: já ninguém o tema!

Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

 

Fernando Pessoa. O Capitão do Fim, in Mensagem.

Entrevistadora nº1

A viagem de Bartolomeu Dias foi  depois continuada por Vasco da Gama  já no reinado de D. Manuel (e na qual este notável marinheiro também participou).

(Dirige-se para D. Manuel)

El-rei D. Manuel, Vossa Alteza recebeu o trono exatamente no momento em que o país se preparava para atingir grande projeção internacional.

Poderemos dizer que há horas felizes!?

D. Manuel I

Sim, há horas felizes!

De facto, o poder veio parar às minhas mãos de forma (pausa) inesperada em 1495.

E nem sequer tive que andar para aí a negociar como aconteceu com o Senhor da Costa!

O herdeiro do trono era D. Afonso, mas foi vítima, infeliz, de um acidente e quando o meu primo e cunhado (aponta para D. João II) também faleceu, de causas nunca verdadeiramente apuradas, fui aclamado rei.

(Conformado) Teve de ser...

Mas também quero dizer que, apesar de ter sido cognominado O Venturoso, ou O Felicíssimo, nos 26 anos do meu reinado foram feitas várias reformas na administração pública e no ensino (aparte) (até parece 2016…), promovi o desenvolvimento das artes e continuei o projeto de D. João II de chegar à Índia.

Entrevistadora nº2

Vossa majestade referiu ter desenvolvido as artes. Estava certamente a pensar no estilo Manuelino!?

D. Manuel I

Sim, um estilo com características únicas e bem portuguesas!

Com motivos decorativos ligados aos descobrimentos e a símbolos nacionais…

Sabe, eu sempre tive uma obsessão pela arquitetura e promovi o seu desenvolvimento, aproveitando a riqueza obtida com o comércio!

Entrevistadora nº1

Foi uma grande dádiva aquilo que nos deixou majestade! O mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém ou a Janela do Convento de Cristo em Tomar falam por si!

D. Manuel I

(Orgulhoso) É sempre bom saber que apreciam o nosso trabalho!

(Triste) Pena só ter ficado uma janela… aquilo era tão grande...

Entrevistadora nº2

O projeto de chegar à Índia por mar traçado por seu primo não foi um projeto pacífico. Sabemos que a maior parte dos conselheiros da Coroa, os chamados“Velhos do Restelo” como escreveu Camões, se opôs a esta ideia por ser considerada ousada e despesista, mas Vossa majestade decidiu levá-lo a cabo.

Que medidas tomou para o concretizar?

D. Manuel I

Logo que assumi o trono entreguei o estudo do projeto ao astrónomo real Abrãao Zacuto, que se mostrou favorável.

Depois ordenei que se concluíssem os navios que já tinham sido começados no tempo de D. João II e esta tarefa entreguei-a a Bartolomeu Dias… qual despesismo?

Eu limitei-me a terminar o projeto (em voz baixa) e a colher os louros...

Entrevistadora nº 1

Sim, ouvimos há pouco o navegador Bartolomeu Dias dizer que as caravelas já seriam barcos pouco adequados à navegação no Atlântico sul.

Mas, que tipo de navios eram esses?  

D. Manuel I

(Baixo) Não sabe mesmo nada…

Esses navios eram as naus...

Eram embarcações maiores e de construção mais forte.

Mas, talvez Bartolomeu Dias me possa dar aqui alguma ajuda! Eu, é mais coches...

Bartolomeu Dias

(Suspira, enfadado) Com certeza, majestade.

(Vai mimando as características das embarcações) As naus eram maiores e usavam velas quadrangulares nos dois mastros principais em vez das velas triangulares.

Só o mastro da popa levava uma vela latina.

As naus eram acasteladas na ré e à vante, para, em caso de guerra, a tripulação se abrigar nos castelos.

Tinham também a borda mais alta que as caravelas  porque os ventos e as correntes da zona do cabo da Boa Esperança assim o exigiam.

A melhor tecnologia da época, ecológica e sem fazer batota...

Entrevistadora nº2

Sabemos que depois da viagem à Índia, vossa majestade assumiu um novo  título!

D. Manuel I

(Vaidoso) Bem, como sabe os títulos dos monarcas iam-se acumulando de acordo com os factos históricos realizados. Eu, com a viagem de Vasco da Gama, assumi o título de:

“Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia”

Entrevistadora nº1

(Dirige-se para Vasco da Gama)

Dom Vasco da Gama, El-rei D. Manuel nomeou-o capitão da frota que em 1497 partiu com destino à Índia.

Quanto tempo demorou a sua viagem?

Vasco da Gama

(Não ouve bem, põe a mão na orelha para ouvir melhor e diz) Era preciso muita coragem, muita coragem!

Entrevistadora nº1

Sim, vossa mercê tinha muita coragem…

Mas, (grita) quanto tempo demorou a viagem?

Vasco da Gama

Ah! Muito tempo, bela donzela! Muito tempo!

Para uma viagem tão longa, eram necessários dois anos.

Um ano para a ida e outro ano para a volta.

Entrevistadora nº2

Há um ditado popular que diz “quem vai para o mar avia-se em terra”

Pergunto:

  • Para uma viagem tão longa, que alimentos levavam?

Vasco da Gama

O quê!? Quer saber onde mijavam?

Entrevistadora nº2

Não… (Gritando) Eu perguntei que alimentos levavam?

Vasco da Gama

Ah! Levávamos, sobretudo, alimentos que resistissem ao tempo e ao calor, como biscoitos, peixe seco e carnes salgadas.

Nestas viagens havia a nau dos mantimentos que era carregada com toneladas destes produtos e com barricas de vinho e de água.

Depois íamos parando para distribuir os alimentos, para mudar a água e abastecer-nos de mais alguns produtos, em determinados pontos da costa. Eram as chamadas aguadas.

As outras três embarcações levavam sempre alguns produtos, para as necessidades  semanais ou mensais.

Como a tripulação rondava os 100 a 150 homens… contando com os capitães, mestres, pilotos, escrivães, marinheiros, soldados, carpinteiros, cordoeiros, sacerdotes, intérpretes, corneteiros, prisioneiros... tínhamos que levar muitos alimentos.

Mas a alimentação era sempre um problema porque como não tínhamos alimentos frescos, havia muitos marinheiros que apanhavam escorbuto e acabavam por morrer.

Entrevistadora nº1

Para além do escorbuto, que outras dificuldades tiveram de enfrentar nessa longa viagem?

Vasco da Gama

Bem, até ao cabo da Boa Esperança fomos seguindo as rotas dos outros capitães.

A partir daqui tudo era novidade.

Por isso, na costa oriental de África fizemos uma navegação costeira e fomos parando em vários portos com nomes estranhos: Inhambane, Quelimane, Moçambique, Mombaça e Melinde.

As populações locais muçulmanas reagiam à nossa presença com desconfiança.

Alguns atacaram-nos e maltrataram-nos, outros receberam-nos bem.

O imperador de Melinde foi o que nos recebeu melhor, porque queria a nossa ajuda para enfrentar os vizinhos de Mombaça.

Até nos  ofereceu um piloto que nos guiou até Calecut.

Era o dia 20 de maio de  1498, quando chegámos ao porto de Calecut.

Lembro-me perfeitamente!

Que grande receção nos fez o Samorim! Mas foi tão breve  a nossa felicidade.

Entrevistadora nº2

Breve felicidade?

Vasco da Gama

O quê? A menina quer saber a minha idade?

Eu já sou um homem muito velho.

Entrevistadora nº2

Não!

(Diz em tom alto) Eu queria saber por que razão é que a vossa felicidade foi breve?

Vasco da Gama

Ora, porque a cordialidade do Samorim acabou rapidamente e as  negociações tornaram-se difíceis.

Bem me esforcei para conseguir condições favoráveis  para o comércio, mas as grandes diferenças culturais e o baixo valor das nossas ofertas tornaram as negociações muito complicadas.

O Samorim queria ouro e prata  e nós  levámos  tecidos, chapéus, coral, açúcar, azeite e mel.

Os nossos presentes não impressionaram ninguém, antes pelo contrário, foram motivo de  escárnio.

Além disso, os muçulmanos que dominavam o comércio naquelas paragens não viam com bons olhos a concorrência dos portugueses que, para agravar, não sequer tinham a religião deles.

Para conseguirmos  comprar algumas especiarias e joias para trazer para o reino tivemos que vender as nossas mercadorias a uns preços miseráveis.

Só pela força é que nos conseguiríamos impor no Oriente!

Entrevistadora nº 1

 

Entrevistadora nº 2

A vossa viagem foi narrada por Luís de Camões na obra Os Lusíadas, que desta forma a tornou imortal.

(Aparte) Tão imortal que não há criancinha de 9º ano que não gostasse de não a conhecer...

 

Perante a hostilidade manifestada pelos muçulmanos, D. Manuel enviou ao Oriente uma nova armada, esta muito mais poderosa que a primeira.

Qual era objetivo desta nova viagem, El-rei D. Manuel?

D. Manuel I

Em primeiro lugar pretendíamos demonstrar o poderio militar de Portugal.

Por outro lado, esta armada também deveria servir de suporte ao estabelecimento de uma feitoria em Calecut, porque o que nós queríamos verdadeiramente era comerciar as especiarias e estabelecer relações comerciais na Índia.

Mas para isso, era importante  estabelecer alianças com vários soberanos locais.

Entrevistadora nº1

(Dirige-se para Pedro Álvares Cabral).

Pedro Álvares Cabral, vossa mercê foi o navegador escolhido por D. Manuel para concretizar este objetivo.

Como era constituída a frota que comandáveis?

Pedro Álvares Cabral

A nossa frota tinha 13 navios. 9 naus, 3 caravelas e 1 naveta de mantimentos. As naus estavam equipadas com artilharia para dissuadir eventuais resistências.

A esquadra transportava entre 1200 e 1500 homens, incluindo a tripulação, a gente de guerra, o feitor, os agentes comerciais e escrivães, o cosmógrafo mestre João, um vigário e oito sacerdotes, oito franciscanos, os intérpretes, os indianos que tinham sido levados para Lisboa por Vasco da Gama e alguns degredados.

Entrevistadora nº2

Sabemos que a armada que vossa mercê comandava saiu de Lisboa a 9 de Março de 1500 com destino à Índia, mas a determinada altura desviou-se da rota traçada pelos anteriores navegadores.

A que ficou a dever-se este desvio?

Estava programado ou foi meramente acidental?

Pedro Álvares Cabral

Bem, seguimos a rota habitual até Cabo Verde, onde estava previsto fazermos a aguada.

Mas tal não aconteceu porque nos apercebemos que tinha desaparecido a nau do capitão Vasco de Ataíde.

Procurámo-la mas não havia maneira de a encontrarmos.

É provável que tenha naufragado devido à má visibilidade provocada pelo nevoeiro e pelas nuvens de poeira que vêm da costa saariana.

Rumámos então para oeste e um mês depois, no dia 22 de Abril, avistámos algumas aves e depois vimos um grande monte a que chamei “Monte Pascoal”, porque era Páscoa, (muito original, acho!) e àquela terra dei o nome de “Terra de Vera Cruz”, mas aqui já estava sem ideias...

Agora, se me pergunta se este desvio foi programado ou não, já se passou muito tempo e a memória já me falha muitas vezes (baixa o tom de voz) mas… talvez tenha partido de uma sugestão muito reservada  que El-rei D. Manuel me fez.

O que interessa é que  descobri (em tom baixo) ou achei, isso agora não interessa nada, o Brasil!

Entrevistadora

nº1

Terá sido esse o motivo que o levou a mandar o capitão Gaspar de Lemos de volta a Portugal para dar conhecimento ao rei sobre o achamento da Terra e Vera Cruz?

Aquilo que ele já suspeitava...

D. Manuel I

e

Pedro Álvares Cabral

 

(Ambos acenam a cabeça em sinal de concordância)

Dahh! Ouça! O que é que acha!?

Entrevistadora

nº1

Muito bem!

Gaspar de Lemos, na viagem de retorno a Lisboa,  efetuou um reconhecimento do litoral entre Porto Seguro e o cabo de São Jorge, o que lhe permitiu obter a confirmação de que se tratava de um continente.

Já em Lisboa entregou ao rei papagaios, arcos, flechas e outros objetos fornecidos pelos índios tupiniquins, bem como cartas dos capitães, do feitor, do cosmógrafo e do escrivão Pero Vaz de Caminha sobre o "achamento da terra nova".

O rei decidiu manter segredo sobre o assunto até obter informação sobre os limites.

Capitão Cabral, que relato nos faz da nova terra e dos seus habitantes?

Pedro Álvares Cabral

Aquela terra quase se podia chamar “Terra dos Papagaios”, tal era a abundância deles.

Havia também macacos e muitas árvores. E se fosse só lá...

Os habitantes eram muito diferentes de nós.

Os homens tinham  feições avermelhadas.

Muitos andavam pintados de preto e vermelho e com penas coloridas na cabeça.

Tinham os beiços perfurados com ossos.

As mulheres andavam com suas (pigarreia) vergonhas tão nuas e com tanta inocência que não havia qualquer maldade.

Algumas também andavam pintadas.

Quando lhe demos a provar da nossa comida, como pão, peixe cozido, mel  figos, comeram muito pouco  e cuspiram logo o vinho.

Ah, e fugiram quando viram uma galinha, imagine!

Era um mundo muito diferente do nosso!

Não conheciam nem a agricultura nem a vida sedentária.

Viviam da caça, da pesca e dos recursos da floresta.

Entrevistadora nº 1


Entrevistadora nº 2

Decerto! Mas apesar dos seus habitantes viverem num estádio de desenvolvimento inferior ao nosso, o Brasil ainda nos haveria de dar muitas alegrias, sobretudo com a descoberta do ouro e dos diamantes.

Com todos os outros territórios entretanto conquistados, Portugal tornou-se um império que durou até ao século XX e que perdura hoje através da nossa língua, falada em todos os continentes, por mais de 240 milhões de pessoas.

 

Esta entrevista já vai longa e o tempo de satélite está a esgotar-se.

Resta-nos agradecer aos nossos ilustres convidados a entrevista que nos concederam e dizer-vos que todo o vosso trabalho e as tormentas passadas valeram a pena!

Peço aos nossos assistentes que ajudem os convidados a dirigirem-se para   o reino de S. Pedro.

Muito obrigado a todos e até para a semana, com mais uma entrevista histórica aqui no Canal Josefa TV.

D. João II

A donzela vai desculpar, mas eu não saio daqui!

D. Manuel I

Então se o meu primo não sai, eu também não saio!

D. Afonso V

Naquele reino não se faz nada, o que vamos para lá fazer?! Queremos ficar na Josefa para novas conquistas!

Restantes monarcas e navegadores

(Todos falam ao mesmo tempo e de forma desencontrada. Levantam as bengalas enquanto falam)

Não nos vamos daqui embora!

Queremos a Josefa! Queremos a Josefa!

Daqui ninguém sai!

Entrevistadora

nº1

Meus senhores é preciso ordem! Estamos ainda em direto!

Chamem o senhor Diretor!

Entrevistadora nº2

(Suplicando) Por favor, saiam daqui!...

Josefa de Óbidos

Cena 7

(Entra, lentamente, com um ar rígido e severo, olhando para a confusão. Os outros nem se apercebem da sua presença.)

(Grita) Mas o que é que se passa aqui?! Já não se pode pintar em paz?!

Já para o SEI e sem conversa!

Ou tenho de me chatear?! (voltando-se para o público) E vocês vão a seguir...

(Muito assustados saem todos, as luzes diminuem e/ou cai o pano.)

 

(O refrão da música dos Da Vinci, Conquistador,  pode ser apropriada para um final mais divertido, convidando o público a participar)

 

 FIM



 

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publicado por OPTD | Domingo, 17 Janeiro , 2016, 17:52

GRANDE ENTREVISTA Histórica

 

Projeto desenvolvido com a Turma F do 8º Ano

 

Disciplinas: História - Profª Ana Marques (ideia original e escrita)

Português - Prof. José Miranda (reescrita e revisão criativa)

 

 

 

 

 

 

Personagens históricas:

Intérpretes

Entrevistadora nº 1

Bianca

 

Entrevistadora nº 2

Rita B

 

D. João I

Sérgio

 

D. Afonso V

Pedro

 

D. João II

Bruno

 

D. Manuel I

Tiago

 

Infante D. Henrique

Raquel

 

Gil Eanes

Martim

 

Diogo Cão

Beatriz

 

Bartolomeu Dias

Mariana F

 

Vasco da Gama

Valentina

 

Pedro Álvares Cabral

Maria P

 

Josefa de Óbidos

Mariana C

 

 

 

 

 

dezembro 2015/janeiro 2016

 

 

 

Grande Entrevista Histórica

 

Ato único

 

(Estúdio de televisão. Olham para o público e para os convidados, enquanto falam. As entrevistadoras estão do lado direito do palco. Os reis, sentados do lado esquerdo do palco. Junto das entrevistadoras está D.João I. A figura mais distante é Pedro Álvares Cabral.)  

 

1ª parte

Cena 1

Entrevistadora nº1






 

 

Entrevistadora nº2


Bom dia, senhoras e senhores telespectadores!

Esta é uma entrevista histórica e singular.

É singular porque, gentilmente, S. Pedro abriu-nos as portas do seu reino e concedeu um saída precária a várias personalidades que levaram bem longe o nome de Portugal.

Irreconhecíveis, devido à idade avançada de cada uma delas, temos hoje aqui na Biblioteca Josefa de Óbidos, várias altezas reais e ilustres navegadores dos séculos XV, para falarem dos seus feitos históricos e do impacto que as suas ações tiveram no Portugal quatrocentista.

Agradeço a todos os nossos convidados o enorme esforço para estarem aqui presentes para, de viva voz, nos ajudarem a compreender os acontecimentos que os tornaram imortais.

Para esclarecimento dos nossos telespectadores, faço a cada um a mesma pergunta:

Quem são vossemecês?

Apresentem-se por favor!

Podemos começar aqui pelo meu lado direito.

D. João I

Bom dia!

(Põe as mãos, como na imagem conhecida que pode ser projetada. O mesmo para as outras personagens.)

Sou ex-mestre da Ordem religiosa e militar de Avis.

Fui nomeado Regedor e Defensor do Reino e depois aclamado Rei de Portugal na sequência da revolução de 1383-85.

Sou o primeiro monarca português com o nome João e o primeiro da nova dinastia que fundei: a dinastia de Avis.

Sabem quem sou? (Aguarda uns segundos e diz:) Eu sou D. João I.

Casei com D. Filipa de Lencastre de quem tive oito filhos um dos quais está aqui também, o Henrique. (Olha para o Infante.)

D. Afonso V

(Levanta-se de repente.) Eu sou filho de D. Duarte e de D. Leonor de Aragão. Sou o quinto monarca português com o nome Afonso mas o terceiro da dinastia que o meu avô, el-Rei D. João I, inaugurou.

(Senta-se e acrescenta rapidamente, como se se tivesse esquecido.) Sou conhecido pelo cognome «O africano».

D. João II

(Com um olhar fulminante para D. Afonso V e a sua apresentação pouco real.) Eu sou el-rei D. João II, apelidado de “Príncipe Perfeito” pela forma como exerci o poder.

(Com vaidade.) A Rainha Isabel, a Católica, até me chamava El Hombre… (Pausa.) Oficialmente, subi ao trono em 1481, mas devido às frequentes ausências do reino de meu ilustre pai, D. Afonso V, comecei a governar o país em 1477, altura em que abdicou do trono.

Assumi a direção da expansão marítima portuguesa iniciada pelo meu tio-avô, o Infante D. Henrique (Olha para o Infante.), enquanto meu pai enfrentava os castelhanos, uma vez que tinha pretensões ao trono de Castela.

Casei com a minha prima co-irmã D. Leonor.

D. Manuel I

Eu sou o “Felicíssimo” el-rei D. Manuel I, como escreveu o cronista Damião de Góis.

Herdei o trono de D.João II, numa altura em que Portugal se preparava para alcançar a maior projeção internacional, com a descoberta do caminho marítimo para a Índia e o achamento do Brasil.

Infante D. Henrique

Eu sou D. Henrique, um dos infantes da «ínclita geração».

Sou o quinto filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre.

Fui nomeado por meu pai grão-mestre da Ordem de Cristo, Duque de Viseu e Senhor da Covilhã.

Devido ao meu grande interesse em desvendar os mistérios do oceano,  organizei várias viagens de exploração que aumentaram o conhecimento do mundo.

Por essa razão, fiquei conhecido como «o navegador». Sou frequentemente identificado como o homem do chapelão.

Gil Eanes

Eu sou o navegador Gil Eanes, que dobrou o Cabo Bojador depois de 15 tentativas falhadas, o cabo que Fernando Pessoa tão bem imortalizou no poema “Mar Português” na sua Mensagem. (E declama, teatralmente, levantando-se do seu lugar e erguendo o braço direito:)

 

«Ó mar salgado, quanto do teu sal,

São lágrimas de Portugal!

 

Cena 2

 

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas foi nele que espelhou o céu.»

 

(Todos as personagens declamam o poema, juntamente com Gil Eanes a partir do verso 3, choramingando e mimando as várias referências. O poema pode ser projetado.)    

Diogo Cão

(Limpando as lágrimas, recompondo-se rapidamente.) Eu sou Diogo (como se ladrasse) Cão.

(Os outros assustam-se. Depois, com um ar sério.) Fui navegador da confiança de D. João II.

Em 1480, patrulhei o Golfo da Guiné  tendo sido distinguido na captura de três caravelas espanholas na Costa do Ouro.

Entre 1482 e 1486 estive ao serviço de el rei D. João II de Portugal.

Comecei como escudeiro e depois fui nomeado Cavaleiro da casa real.

Bartolomeu Dias

Eu sou o navegador português que ficou célebre por ter sido o primeiro europeu a dobrar o (Com um ar assustador) Cabo das Tormentas.

Sabem qual é o meu nome ?…

(Aguarda que o público o identifique e diz:)

Sou Bartolomeu Dias.

Vasco da Gama

(Fala com sotaque alentejano, já que é de Sines.) O meu nome é (Pausa) Vasco da Gama, navegador e explorador português.

(Com ar convencido) Devem conhecer… por causa da ponte, não é?

Fui comandante da primeira armada que D. Manuel I enviou à Índia.

Pedro Álvares Cabral

(Fala com sotaque brasileiro.) Eu me chamo Pedro Álvares Cabral e (aponta para onde lhe parece ser a avenida) venho da minha avenida ali à Estrela.

Fui comandante militar, navegador e explorador e me tornei numa figura histórica por ter achado, oficialmente, o Brasil.

(Com pena.) Só achei, não descobri, não!

Mas eu depois explico...

Entrevistadora nº1

(Suspirando) Feitas todas as apresentações, gostava de iniciar esta entrevista, questionando el-rei D. João I.

Em 2015, comemorámos os 600 anos da conquista de Ceuta, tendo este evento sido assinalado em várias escolas e localidades do país.

Vossa alteza real, lembra-se ainda como surgiu a ideia da conquista de Ceuta?

D. João I

(Levanta a cabeça e fecha os olhos, como se estivesse a ver tudo aquilo de que fala.) Lembro-me como se fosse hoje, ou não fosse eu o rei de “boa memória”.

A ideia de conquistar esta cidade terá nascido por volta de 1409.

Como sabem, eu era filho bastardo (atrapalhado) e não me saía da ideia a vontade de me afirmar na Cristandade através de um grande feito.

E desde então até 1415, tudo foi planeado e preparado com muito segredo.

Em 1411, pedi ao papa de Avinhão apoio das ordens militares para a guerra contra os muçulmanos.

Depois comuniquei aos Infantes a minha intenção de conquistar esta cidade e aproveitar a ocasião para os armar cavaleiros.

(Olha para eles e para o público) Eles adoraram esta ideia!

Mas, para prepararmos a conquista era importante conhecermos a cidade.

Por isso, em 1412, num ato de espionagem, enviei dois embaixadores: o Prior do Hospital e o Capitão do Mar à Sicília, com o pretexto de pedirem a mão da rainha (Aparte:) A mão e o resto, coitada... para o meu filho D. Pedro,  e nas viagens de ida e de volta, desembarcaram na cidade  para estudar as condições de defesa e de desembarque.

As informações que estes homens recolheram foram-me transmitidas a mim e aos infantes no Paço de Sintra e não podiam ser melhores.

O Prior fez uma maquete para exemplificar os lugares a partir dos quais podíamos conquistar a cidade, que me pareceu mui azada de se tomar.

Entrevistadora nº2

A intenção de conquistar Ceuta foi escondida da rainha D. Filipa, porque não era assunto de mulheres ou tinha receio de que tudo se viesse a descobrir?

D. João I

Não, não! A rainha, minha esposa, também foi consultada e  ficou tão contente com a ideia de poder armar os filhos cavaleiros ao serviço de Deus, que me deu tantos beijos que até entornou o chá.  

Entrevistadora nº1

Então, Ceuta foi um assunto discutido em família?

D. João I

Em família e não só...

Ceuta, era um projeto de interesse nacional.

E porque envolvia recursos financeiros e militares tão avultados, não podia ser tratado apenas em família.

Foi necessário ouvir os homens da minha confiança.

Por isso, no Verão de 1414, convoquei um Conselho Régio para Torres Vedras, por alturas das festas de Santiago, (sorri) para ser mais animado, onde estiveram presentes os infantes mais velhos, o Conde de Barcelos, o Condestável Nuno Álvares Pereira, os mestres das Ordens Religiosas e Militares, outros homens meus apoiantes ligados a este projeto, e alguns escrivães.

Deste Conselho saiu a decisão da  conquista de Ceuta, que foi considerada serviço de Deus.

Entrevistadora nº2

Sendo a conquista considerada serviço de Deus, não era necessário ter  tido a aprovação do Papa?

D. João I

(Levemente irritado) E quem lhe disse a si que não teve? Brincamos?!

Teve pois. O papa de Roma, João XXIII, concedeu-nos uma Bula de Cruzada que associava as ordens militares à Guerra Santa contra os infiéis, mas por outro lado, e mais importante para mim e para o reino, é que esse  documento, indiretamente, legitimava-me no trono de Portugal.

Não é preciso lembrar-lhe que a minha mãe o meu pai tinham uma situação, digamos… irregular?!

(Aparte) Esta juventude não lê nada...

Entrevistadora nº1

(Baixinho) Majestade, estamos em direto!!

Bom, Infante D. Henrique, que memórias guarda vossa mercê do projeto de Ceuta?

Infante D. H.

(Calmo, olhando o horizonte) Em primeiro lugar, guardo a imagem de um projeto que reunia um grande consenso nacional porque correspondia ao interesse de toda a sociedade portuguesa.

(Aparte) Atualmente, parece que também se conseguiram outros consensos para a Assembleia da República, mas isso são outras histórias!... (Pisca o olho.)

A dinastia de Avis que o meu ilustre pai inaugurou precisava de encontrar formas de se afirmar politicamente na Cristandade e Ceuta era o pretexto adequado.

Por outro lado, a nobreza era um grupo inquieto, sempre à procura de novas batalhas e (esfrega o polegar no indicador) ganhos, o que não acontecia devido à paz com Castela, por isso, era necessário encontrar novas áreas de intervenção militar.

Ceuta, que já tinha sido território cristão durante a Monarquia Visigótica era um local ideal para a nobreza se entreter.

Para além disso, os grupos mercantis consideravam que Ceuta funcionaria como um ponto estratégico no apoio às atividades dos mercadores cristãos, no  combate aos ataques dos corsários muçulmanos e permitiria o domínio do estreito de Gibraltar, controlando as rotas comerciais que ligavam o Mediterrâneo à Europa do Norte.

Finalmente, Ceuta era um importante porto comercial que recebia produtos da África e do Oriente, o que só reforçava a necessidade da conquista e da (levanta ligeiramente a voz e ergue um punho no ar) luta, cujos resultados seriam benéficos para todo o Portugal.

Entrevistadora nº1












As outras personagens

Sabemos que a data da conquista estava prevista para Julho, mas teve de ser adiada devido à morte da rainha, sua mãe.

(O Infante e o rei D. João I choramingam. A entrevistadora consola-os dizendo:)

 

Pronto, pronto. Já passou!

 

(Outras personagens oferecem lenços)

 

Sabemos também que o Infante D. Henrique ocupou uma posição de vanguarda no exército que conquistou Ceuta no dia 21 de Agosto de 1415, tendo sido armado cavaleiro nesta cidade, juntamente com os seus irmãos, D. Duarte e D. Pedro.

Mas a imagem que o povo português guarda na memória é a de um Infante “Navegador” e não “Cavaleiro”.

Existe mesmo um monumento na zona de Belém, o “Padrão dos Descobrimentos”, que retrata o Infante na proa de uma caravela.

A que se deve este epíteto?

 

(As outras personagens, confusas)

Este quê!?

Infante D. H.

(Com um tom doutoral) Bem, o epíteto (ou cognome) de O Navegador foi-me atribuído, não por eu ter navegado, mas por ter promovido e organizado muitas  das viagens  de exploração, nas quais participaram os meus servidores.

O nome mais correto talvez fosse O Descobridor ou até mesmo (convencido) O Inventor dos Descobrimentos, como me chamou mais tarde (em 1490), o meu sobrinho-neto, el- rei D. João II, (com doçura) tão querido!

Na verdade, o meu interesse pela navegação levou-me também a patrocinar uma escola de cartografia, para a qual trouxe de Maiorca um judeu chamado Jaime (acho que ele também está por aí…), conhecedor desta ciência. (Levanta-se e segura nas mãos um globo, com ar sonhador)

Coro (todos os reis ou o coro dos alunos)

Cena 3

 

«Em seu trono entre o brilho das esferas,

Com seu manto de noite e solidão,

Tem aos pés o mar novo e as mortas eras-

O único imperador que tem, deveras,

 

O globo mundo em sua mão.»

 

A cabeça do Grifo (O Infante D. Henrique)

Entrevistadora nº2

(Como se acordasse de um sonho e continuando como se nada fosse) Mas como e onde conseguiu os recursos necessários para financiar tantas viagens?!

Infante D. H.

Não, … não foi no BPN nem no BES, nem nos outros depois desses... (Irritado) A esses senhores não pedi nada! (Lamentando) Nem eles nada me deram...

Como sabe, eu era Duque de Viseu e senhor da Covilhã e, como tal recebia muitos impostos.

(Fechando os olhos e cruzando as mãos) Justamente, óbvio!

Em 1418, juntei ao meu património pessoal também a administração da Ordem de Cristo, tendo a minha casa senhorial acumulado e consolidado uma grande fortuna.

Foi esse desafogo económico que me permitiu organizar viagens de exploração no Atlântico, financiando de certa forma o Estado, compreende?

De facto, foram navios ao meu serviço que chegaram pela primeira vez à Madeira, aos Açores, dobraram o Bojador e, após um período de interregno, marcado pela triste expedição a Tânger, onde o meu irmão Fernando perdeu a vida, as viagens de exploração retomaram e chegaram à Serra Leoa, em 1460 .

Entrevistadora nº1

Já que falou no Cabo Bojador, era importante ouvir o navegador que permanecerá  para sempre ligado a esse acontecimento.

(Dirige-se para Gil Eanes)

Emérito senhor, como foi possível aventurar-se a navegar para lá do  “fim do mundo” conhecido dos europeus?

Gil Eanes

 

Rica donzela, não foi nada fácil! (A entrevistadora cora e abana-se)

Nesse tempo, o conhecimento era muito limitado e quando a ignorância é grande, costuma dizer-se que a imaginação abraça o mundo.

Acreditava-se em lendas fabulosas, como a do mar tenebroso habitado por monstros ou a da existência de zonas tórridas, onde as águas ferventes tudo derretiam pela força do calor.

Nos mapas de então, as anotações terminavam neste cabo, dando asas à imaginação dos cartógrafos, que desenhavam monstros marinhos e outros seres estranhos.

Por isso, uma das grandes dificuldades que tivemos de vencer foi o medo. (Pausa) Hoje parece que o medo é outro, o de existir, como diz um outro Gil*.

(*José Gil, Portugal Hoje - O medo de Existir)

Entrevistadora nº2

Então significa que a maior dificuldade para transpor o Bojador era de natureza psicológica... era uma espécie de barreira mental?

Gil Eanes


Era  de natureza psicológica, mas agravada pelas limitações de carácter técnico e de desconhecimento oceanogeográfico.

Sempre que partíamos para o mar, lembro-me das noites mal dormidas e das dores de barriga que sentíamos só de pensar que poderíamos encontrar  monstros marinhos ou que a fragilidade das embarcações não resistiria às primeiras tempestades.

Como sabe, a caravela latina só apareceu nos Descobrimentos em 1440 e em todas as viagens que fiz naveguei sempre em barcas. Que eram uma porcaria...

Entrevistadora nº1

(Curiosa) Em barcas? Importa-se de nos esclarecer como eram as barcas?

Gil Eanes

As barcas eram pequenas embarcações com um só mastro que eram usadas na navegação costeira e fluvial e nós navegávamos no Atlântico, não sei se está a ver?!

E como eu estava a dizer… além das embarcações serem frágeis, desconhecíamos também os ventos, as correntes e os rochedos que havia no mar.

E naquela zona do Cabo Bojador, havia sempre bastante nevoeiro, o que nos impedia de ver os recifes que por ali existiam e que tornavam a navegação muto arriscada. Por isso, julgávamos que o Cabo era intransponível.

Mas, o Infante meu senhor acreditava que o Bojador não era o fim do mundo e encorajava-nos  a desafiar os nossos medos e a fazermo-nos ao mar.

Por isso, em 1433, entregou-me a capitania de uma barca com o objetivo de passar aquele cabo. Nesse ano, apenas atingi as ilhas Canárias...  

No ano seguinte, em1434, pediu-me  para me esforçar mais um pouco para passar aquele cabo, o que  efetivamente veio a  acontecer.

Foram realizadas 15 expedições para tentar ultrapassar o cabo. E todas falharam.

Só passados nove anos e depois de muito esforço, consegui, finalmente, ultrapassar aquele grande obstáculo.

Afastámo-nos da costa, rumámos um pouco mais para Oeste e quando nos apercebemos o cabo já tinha ficado para trás.

Estávamos no mês… de… maio de 1434.

(Saudoso) Lembro-me como se fosse hoje!...

Entrevistadora nº2

Há quem defenda que os descobrimentos só começaram verdadeiramente a partir da passagem do Cabo Bojador.

Sentiu-se recompensado por ter sido o navegador a dar esse primeiro passo na grande epopeia dos portugueses?

Gil Eanes

Ah! Claro que senti!

O Infante, meu senhor, soube muito bem recompensar-me desse feito.

Não me nomeou gestor de uma grande empresa pública, como aconteceria nos tempos de hoje, (insinuante) que eu sei...

Mas, a passagem do Cabo rendeu-me um casamento com uma mulher de grandes posses.

Um excelente casamento que ele próprio patrocinou!

Além disso, (enfatiza) elevou-me a uma categoria social superior à que eu tinha. Designou-me  “cavaleiro”.

Foi uma grande honra!

Entrevistadora nº1

Temos de avançar. (Cora novamente e abana-se)

(A entrevistadora dirige-se para D. Afonso V)

D. Afonso com a subida de Vossa Alteza ao poder assistimos  a uma diminuição  das viagens de exploração, contrariando um pouco a política que vinha já do tempo do seu avô.

Que razões estiveram na origem dessa mudança?

D. Afonso V

Como sabe, quando o meu pai morreu eu era ainda criança e meu tio, o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra, acabou por assegurar a regência do reino.  

Mas assim que atingi a maioridade afastei-me dele e deixei-me influenciar pelo meu tio Afonso, o Conde de Barcelos.

(Aparte) Temos muitos tios, sabe!...

Este era mais favorável às conquistas no norte de África do que às descobertas e foi esse o caminho que segui.

Em 13 anos conquistámos Alcácer Ceguer, Anafé, Arzila, Tânger e Larache.

Entrevistadora nº2

Vossa alteza, disse na apresentação que ficou conhecido por «Africano». (Curiosa) Foram essas  conquistas que lhe valeram esse cognome?

D. Afonso V

(Sorrindo) Sim, foram estas conquistas.

(Sério) Estas conquistas permitiram-me juntar ao título de «rei de Portugal e dos Algarves» o de rei de «aquém e de além-mar em África». 

Eu fui sobretudo um rei-cavaleiro.

Por isso, a exploração da costa foi entregue ao mercador Fernão Gomes que ficou com o monopólio do comércio na Guiné.

Entrevistadora nº1

Ao aproximar-se do seu tio Afonso, o conde de Barcelos e 1º duque de Bragança, as relações com o tio D. Pedro azedaram a ponto de ter lutado contra ele na batalha de Alfarrobeira, onde acabou por morrer.

(A medo) Não considera que a sua aproximação ao Conde de Barcelos acabou por beneficiar a alta nobreza e prejudicar seriamente as finanças do país?

D. Afonso V



D. João I,

I. D. Henrique

D. João II

 

D. Afonso V

 

D. João I,

I. D. Henrique

D. João II

 

D. Afonso V

(Irritado) Oh minha senhora!

Nessa época já havia os vícios dos tempos atuais.

Qualquer rei favorecia o seu grupo de amigos, conselheiros  e servidores, quer eles fossem das classes populares… como aconteceu com meu avô D. João I ou de outros grupos.

É o que acontece com os governos de agora quando arranjam “tachos e tachinhos” para os amigos.

 

(Todos) Para os boys... para os boys!


Pois, para os bois, seja lá o que isso for...

A diferença é que naquela altura não se falava em Troika. Ninguém de fora nos controlava. Sorte a nossa!

 

(Todos) Azar o nosso!

 

Não sei, talvez esse tenha sido um dos meus erros, mas eu raramente me engano...

Só o meu filho João poderá dizer como encontrou as finanças, mas era melhor não...

Entrevistadora nº2

(Atrapalhada)   

Bom… se calhar o melhor é irmos agora para intervalo devido aos problemas de próstata dos nossos convidados.

Não saia daí e fique com os nossos compromissos comerciais.

 

INTERVALO

   
 

 

 





 

 

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publicado por OPTD | Segunda-feira, 18 Fevereiro , 2013, 22:47

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publicado por OPTD | Sexta-feira, 13 Maio , 2011, 17:59

Digo Alentejo

Digo para ver

Sophia

 

Aos meus Avós,

Amélia e Francisco,

Maria Joana e João,

Antónia e Aurélio

 

Digo Alentejo e sinto em mim ressonâncias de um tempo antigo e distante. O tempo em que festejavam o dia dos meus anos, o tempo em que eu era mais eu, porque me desconhecia.

Tudo começou ainda antes de eu nascer. Nesse Alentejo mítico dos meus bisavós, avós e pais. Nesse Alentejo onde eu nunca nasci, mas que era “a minha terra” de férias grandes e de mornas sestas embaladas pela voz da minha avó: “Dorme, dorme, meu menino…”

Digo Alentejo e recordo o calor da paisagem e a exalação das searas quietas, a frescura da manhã quando ainda se viam estrelas no céu e juntos caminhávamos para a horta, a regar o lindo emaranhado de feijões verdes agarrados às canas secas, que eu continuo a detestar por serem verdes.

Sempre me fascinava observar o trilho das águas através da terra seca e a vida que rodeava o poço antigo e fresco: cobras, mosquitos, abelhas, lagartixas e flores, muitas flores, sempre-vivas, que levávamos para casa para sempre.

Digo Alentejo e vêm-me à memória dos sentidos os campos amarelos, as amoras cheias de pó que deixavam uma nódoa negra eterna e que diziam aos nossos pais “já namoras”, os canchos duros que quebravam a lisura da paisagem, onde se encostavam os sobreiros, as azinheiras, as verdes oliveiras a quem batíamos para darem mais azeitonas quando chegasse o Inverno…

E como esquecer o repetido eco das cigarras, zurzindo a calma da tarde flamejante, o som dos grilos escondidos nos buraquinhos do chão, única perturbação das sestas em cima da cama, na escuridão fresca de cal do meu quarto de menino.

Digo Alentejo e lembro-me dos doces que tias e avós me davam generosamente e que eu guardava como um tesouro açucarado dos carreiros teimosos das formigas.

Evoco as missas onde aprendia palavras estranhas, “súplicas, preces, oblações” que ninguém me sabia explicar de tão mágicas e repetidas e sagradas, como num encantamento em que o importante não é a palavra, mas o som, o desejo, o gesto, o ritual de água e azeite num alguidar, contra o mau-olhado, a lua, o sol, o vento suão… e que sempre curavam todos os males do corpo e da alma.

Digo Alentejo e vejo caras enrugadas e sem dentes, mãos grandes e deformadas, ásperas, secas, corpos pequenos e apoiados por bengalas, num passo cadenciado e lento, arrastado de ternura e vida, de anedotas do Bocage e lembranças da miséria que era dividir uma sardinha por quatro, milagre digno de um Messias distante no tempo e na história.

São essas caras que já não vejo quando te visito, Alentejo, terra sagrada que guardas as minhas memórias e os meus antepassados saudosos, e onde me reencontro comigo mesmo.

Digo Alentejo e sinto-te cá dentro do peito a bater, o teu calor, o teu frio, o teu excesso, a tua teimosia, o teu fogo me guiam e acompanham agarrado aos genes e aos gostos, ao esforço que ninguém te reconhece, Alentejo, por inveja e anedota dos que não te conhecem, nem às tuas boas gentes.

Por isso te celebro nestas palavras e te eternizo, Alentejo, minha terra onde não nasci, mas onde me conheci, Verão a Verão, férias a férias, numa cadência certa de Natais, Carnavais, Páscoas e Senhoras da Graça, com missa, procissão e quermesse, com bailes em que os homens ficavam a ver as mulheres dançar umas com as outras, de vergonha, touradas à vara larga, numa perfeição cósmica sem mudanças nem sobressaltos.

Digo Alentejo e a própria palavra ganha novos significados, foge-me da etimologia certa e segura e transforma-se num tempo perpétuo, num espaço deslocado que me acompanha, num cheiro a ervas secas e a pó, num sabor a melancia madura a escorrer pelos cantos da boca, num horizonte distante da memória do que foi e é para mim Alentejo.

 

José Miranda

 


publicado por OPTD | Quarta-feira, 05 Janeiro , 2011, 22:24

 

Resumo[1]:

Certo dia, um jornalista todo entusiasmado foi visitar uma cidade, Lixolândia, habitada por enormes quantidades de lixo e poucas pessoas.
Havia poucas pessoas, porque aquela cidade era muito poluída e as pessoas iam-se embora por causa disso.
O jornalista decidiu entrevistar os Ecopontos que estavam muito tristes porque não eram usados por ninguém.

Os ecopontos resolveram fazer uma canção para ensinar às pessoas como deviam tratar o lixo.
A partir desse dia, todas as pessoas mudaram completamente o seu comportamento. As ruas estavam limpas e principalmente os Ecopontos estavam cheios e agora estavam muito felizes.
Tudo mudou e até o nome da cidade mereceu uma modificação, passou a chamar-se «Ecolândia».
A cidade passou a ser habitada por muita gente e todos viveram felizes.

 

Personagens:

 

Jornalista

Plasticão

Papelão

Vidrão

Pilhão

Oleão

Electrão

Rolhão

Adultos

Crianças



[1] Inspirado livremente de <http://osamigosdoambiente.blogspot.com/2008/04/pea-de-teatro-ecolndia.html>, consultado a 24 de Outubro de 2010.

 

I acto

 

A cidade de Lixolândia, lixo por todo o lado. Os ecopontos estão escondidos debaixo do lixo (papel, cartão, embalagens de plástico e metal, vidro, pilhas, electrodomésticos, rolhas, óleo...). Os adultos preparam malas para sair da cidade e andam de um lado para o outro à procura de uma saída e das crianças, desaparecidas misteriosamente. O jornalista tenta entrevistar um adulto.

 

Cena 1

 

Jornalista – (com um microfone ou um gravador na mão) Eh, onde é que vão? Venho cá para fazer uma entrevista e descobrir mais sobre a vossa cidade e vão-se embora?!

Adulto – (de dedos a apertar o nariz e com uma mala na mão) Desculpa, mas não podemos falar! Cheira muito mal!

Jornalista – (apercebendo-se) Ah, pois é! Que horror! De onde vem este cheiro? (e põe também a mão no nariz)

Adulto – Não vês?! É do lixo todo que está espalhado na nossa cidade. É por isso que se chama Lixolândia. Já não se aguenta mais! Temos de ir embora para outra cidade com menos lixo… Adeuzinho! Mas onde estarão os meus filhos? (espreita debaixo do lixo)

Jornalista – E deixam-me aqui sozinho?!

Adulto – Tens aí muito lixo. Fala para o lixo, que ele diz-te o que queres saber… (a gozar com o jornalista)

Jornalista – Muito engraçado… O que é que eu vou dizer agora lá para o jornal?!

 

Cena 2

 

Ecopontos – (todos juntos, tossem) Hum, hum…

Jornalista – (alto) Quem está aí?

Ecopontos – (todos juntos) Estamos aqui debaixo! Ajuda-nos! Por favor!

Jornalista – Mas quem está a falar?! Será que são fantasmas?... (com medo)

Plasticão – Qual fantasma, qual quê! Somos os ecopontos! E estamos aqui debaixo desta montanha de lixo!

Papelão – Tira-nos daqui!

Vidrão – Ninguém nos usa, mas o lixo é tanto que as pessoas já nem sequer nos vêem!

Pilhão, Rolhão e Electrão – (todos juntos) É uma falta de respeito por nós!!!

Jornalista – Realmente…

Oleão – Eh, não se esqueçam de mim! Sou gorduroso, mas faço muita falta!...

 

(O Jornalista afasta o lixo e encontra as sete estranhas criaturas, vestidas das várias cores associadas a cada ecoponto : amarelo, azul, verde, vermelho, laranja, vermelho e castanho)

 

Jornalista – (Curioso) Mas quem são vocês afinal?! Apresentem-se e pode ser que eu vos entreviste para o meu jornal…

Ecopontos – (todos juntos) Nós somos os Ecopontos da cidade da Lixolândia!!!

Jornalista – Muito prazer! (estende a mão para cumprimentar, mas depois volta atrás, lembrando-se do lixo…)

Ecopontos – (todos juntos) Qual prazer!!! (tristes) Estamos p’ra aqui abandonados e sujos, porque ninguém sabe que existimos…

Jornalista – (interessado) Contem, contem! (e liga o gravador ou aponta o microfone)

Vidrão – (tomando a palavra) Eu, como mais velho, é que devo explicar!

Os outros Ecopontos – (a falar ao mesmo tempo, sem ordem) – Nem penses nisso! Eu é que devo falar por todos!...

Jornalista – (irritado) Desculpem lá, mas assim não nos entendemos! Vou começar dos mais pequeninos para os maiores, um de cada vez. Pode ser?

Ecopontos – (amuados) Se queres assim…

Jornalista – (dirigindo-se ao Pilhão) Tu, pequenino, quem és?

 

(O Jornalista vai ouvindo com muita atenção e espanto todos os ecopontos)

 

Pilhão – (muito satisfeito por ser o primeiro) Eu sou o Pilhão e colecciono as pilhas descarregadas de todo o tipo. Se não as colocarem cá dentro o mercúrio e outros metais perigosos podem contaminar a Terra! Adoro as pilhas de relógios, porque são redondinhas e saborosas. (lambe-se) E ando sempre às cavalitas do vidrão… (ri-se)

Vidrão – (conformado) Que remédio!...

Jornalista – Ah, não sabia… Pensei que iam todas para o lixo…

Ecopontos – (todos juntos) Não, não! (levantando o indicador)

Rolhão – Agora sou eu! (triste) Eu sou o Rolhão e ninguém me liga nenhuma… Eu só como rolhas de cortiça. Principalmente aquelas que vêm das garrafas de vinho e outras bebidas. Essa cortiça é reaproveitada para muitas coisas em vez de ir para o lixo comum sujar a Terra!

Jornalista – Tenho tantas lá em casa na gaveta da cozinha e não sabia onde as devia deixar!…

Oleão – (às cotoveladas, chegando-se à frente) Agora sou eu, o Oleão! Eu recolho os óleos alimentares devidamente colocados em garrafas de plástico fechadas. Se esse óleo for despejado pelo cano vai poluir milhões de litros de água e sufocar os peixinhos dos rios e dos mares. Para gorduroso, basto eu!

Jornalista – (enojado) Tem toda a razão!...

 

(Os outros ecopontos afastam-se dele)

 

Vidrão – (alto) Posso falar?! Eu, para além de ser do Sporting, adoro vidro, de todos os feitios, tipos e cores, menos lâmpadas e porcelana. (com desprezo) São muito finos…

Plasticão – Eu cá não sou esquisito. Embalagens de plástico e metal é comigo. E bem aproveitado, tudo o que me dão pode ser reutilizado. Ah, e já agora, as tampas das garrafas devem ser tiradas e as embalagens espalmadas para ocupar menos espaço!

Jornalista – (com espanto) Muito bem!

Papelão – Eu também não sou esquisito! O meu sonho era trabalhar numa escola… Adoro papel e cartão de todas as formas e cores. Mas bom mesmo era que só me utilizassem depois de usar muito bem os dois lados da folha e que não gastassem folhas novas para fazer aviões e bolas de papel, não é meninos?! (para o público e para as crianças que começaram a aproximar-se deste grupo e a ouvir com muita atenção)

 

Cena 3

 

Electrão – (muito aflito) Então e eu?! Não se esqueçam de mim! Sou novo, mas muito útil. Aceito tudo o que é electrodoméstico avariado e sem arranjo : torradeiras, aquecedores, dvd’s…

Jornalista – Vocês sabiam disto, meninos?!

Crianças – (em desordem…) Acho que o meu professor já falou disso na escola, mas ele é um chato e nós só ouvimos metade do que ele diz, às vezes!...

Ecopontos – (todos juntos) Se o vosso Professor falou de nós, é porque é nosso amigo e vosso também. A Terra é de todos e todos a devem proteger, desde pequeninos. (para as Crianças e Público) Querem ouvir uma canção?

Crianças – É uma canção sobre o quê?!

Ecopontos – (todos juntos) Sobre nós, claro!!! (e cantam)

 

 

(com a música do hino da Escola Básica 2, 3 Almirante Gago Coutinho – Lisboa, de José Carlos Almeida)

 

Nós somos os sete ecopontos

Da cidade da Lixolândia.

Se não quiserem ser uns tontos

Vamos fazer uma Ecolândia.

 

Basta colocar todo o lixo

No ecoponto adequado.

E depois de fazerem isso

Vamos limpar p’ra outro lado.

 

A Terra é tão cheia de cores

E temos de a ajudar,

Por isso sigam nosso conselho

E vamos todos RECICLAR!

 

E vamos todos RECICLAR!

 

(A letra pode estar afixada para que o público possa acompanhar. As Crianças podem acompanhar com instrumentos a canção. Enquanto os Ecopontos cantam, outras Crianças separam o lixo em sete montes e a cidade fica limpa.)

 

Ecopontos – (espantados) Olhem para a cidade! Está limpa! Que bonita!

Crianças – E foi tão fácil!

Cena 4

Adultos – (com as malas e os dedos no nariz) Meninos, onde estavam?!

Crianças – Aqui, com os Ecopontos!

Adultos – Com quem?

Crianças e Ecopontos – (todos juntos) Eles!!! Nós!!!

Adultos – (sem perceber nada) Ãh?!

Ecopontos - (todos juntos) Nós! Sempre aqui estivemos, mas como nunca nos usaram, o lixo tomou conta da vossa cidade. Mas agora que já sabem o que fazer ao lixo, já podemos mudar o nome desta Cidade para Ecolândia. O que vos parece?

Adultos e Crianças – Aprovado!!! A partir de agora não vamos deixar que o lixo tome conta da nossa linda cidade.

Adultos, Crianças e Ecopontos – (para o Público) Combinado?!

(Cai o pano, onde houver, ou canta-se novamente a canção da cena 3)

5 de Janeiro de 2011

FIM


publicado por OPTD | Sexta-feira, 06 Agosto , 2010, 23:48

 

Às vezes falamos de mais. Não ouvimos, gritamos para que não oiçam os outros, respondemos a coisas que não nos perguntam e até podemos nem responder...

 

A Ana era assim. Com os pais, os avós, as amigas, os professores... era como se só tivesse boca e não tivesse ouvidos. O professor dela até lhe dizia que Deus na sua infinita sabedoria só nos tinha dado uma boca para dois ouvidos, porque era mais importante ouvir que falar, mas ela talvez nunca tenha ouvido este reparo do professor e continuava a falar furiosamente.

 

Um dia, Ana aprendeu sozinha e sem histórias, nem sermões como era importante ouvir e falar apenas quando é necessário. De manhã, quando chegou à escola de manhã, descobriu, com surpresa, que tinha teste de Português e não tinha estudado, depois foi a aula de Geografia e foi apanhada outra vez pela bruxa da professora sem tpcs... Na aula com a DT levou um recado extra porque não trouxe a caderneta assinada e outro pelo tpc de Geografia. Ao almoço, ficou sem comer porque não sabia que as senhas deviam ter sido compradas com mais antecedência do que o costume. Foi horrível, já sentia o estômago nas costas e um barulho imenso ecoava lá de dentro da sua barriga. Que vergonha! As amigas bem tentaram oferecer-lhe comida, mas a Ana estava tão irritada com as senhoras da cantina que nem ouviu e as amigas não insistiram porque com a Ana não valia a pena falar... À tardinha, esperou, mas os seus pais não apareceram. Foi a pé para casa e esperou até às oito da noite até que alguém aparecesse em casa.

 

Os pais estavam preocupadíssimos. Tinham avisado a Ana que nesse dia devia ir com a Maria para casa da avó, que eles passavam por lá para a buscar e ela tinha desaparecido. Depois receberam um telefonema da DT a contar do teste de que ela não tinha ouvido falar por distracção nas aulas, dos tpcs, da senha do almoço que ela não comprou depois dos avisos da DT, enfim, o costume... A Ana não sabia ouvir.

 

 

Falar é como manter uma fogueira acesa.  Quando se acende é preciso calma, pôr pauzinhos, palha, lume e depois vão-se deitando pauzinhos maiores, eu ponho um, tu pões outro, eu digo «olá!», tu dizes «tudo bem?», eu digo «como te chamas?» e tu falas-me de ti e eu de mim, ouvindo-nos até termos um lume calmo, seguro, duradouro e bom.

 

Se só falamos ou só ouvimos é como se puséssemos cinza ou água no fogo e a conversa morre e apaga-se.

 

Naquela noite, a Ana descobriu que afinal ouvir é muito importante e que ter boca é uma grande responsabilidade, como dizia o professor.


publicado por OPTD | Domingo, 14 Março , 2010, 12:36

 

quando eu era pequenino acreditava que o mundo estava cheio de magia e que tudo era possível

o meu padrinho era uma pessoa importante porque aparecia numa nota nas mãos de toda a gente, aquela cinzenta, dos aniversários

era o mesmo nome, o bigode, os olhos claros até o porte altivo de figura de nota valiosa

mas afinal era apenas um homem

e nunca me deu uma nota de 1000$00 pelos anos

o que a gente se engana

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publicado por OPTD | Quinta-feira, 17 Dezembro , 2009, 00:36

Já não gosto de festejar datas.

 

Ainda assim há datas que nos celebram a nós.

 

A minha mãe lembrou-me disso há pouco.

 

Há três anos, a minha vida deu um tremendo solavanco, cuja simples memória me enjoa e arrepia.

 

Como nos habituamos ao sofrimento!

 

E como tão depressa o esquecemos...

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publicado por OPTD | Segunda-feira, 07 Setembro , 2009, 17:37

A porta estava aberta. À minha frente estendia-se um largo corredor com fotografias de candeeiros nas paredes. Ao fundo, à direita, era a sala. Tinha duas grandes janelas sem cortinados e muitos vasos de barro cor de laranja com cactos de formas estranhas. Encostado a uma parede, um sofá de ele clara cheio de almofadas coloridas. Numa mesinha de madeira, pilhas de livros, romances franceses ou ensaios talvez e uma chávens com restos de chocolate seco. a televisão estava ligad num canal qualquer de notícias.

Perguntei: está alguém?!


publicado por OPTD | Segunda-feira, 07 Setembro , 2009, 17:36

Aquele vento quente do final da tarde evocava em mim os dias de férias grandes no alentejo, aqueles três meses de liberdade, sem horas, sem carros, sem escola...


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